Quinta-feira, Dezembro 08, 2011

Uso de contos ou histórias como meio de transmissão de valores no Rap Moçambicano


Introdução
Em muitas comunidades africanas onde ainda não existe a educação formal, contos ou histórias têm sido usados pelos mais velhos como meio de transmitir valores para os mais novos. Na verdade, esta forma ‘tradicional’ de educar não se restringe apenas a essas comunidades podendo, portanto, estender-se e adaptar-se para qualquer outra paisagem social. Tradicionalmente, as histórias eram contadas rigorosamente à volta da fogueira, cabendo aos mais velhos o papel de transmitir, por essa via, aos seus descendentes, valores morais que outrora também lhes foram transmitidos pelos seus antecessores. Hoje em dia as coisas mudaram e essas histórias estão disponíveis em qualquer meio de comunicação, podendo estar escritas nos livros, lidas através da rádio, transmitidas pela televisão, projectadas através do cinema, na Internet e até onde menos se desconfia que elas estejam: na Música.    
O presente texto pretende, conforme o título sugere, ser uma breve demonstração de como as histórias são usadas no mundo da música Rap (vertente musical da cultura Hip Hop) como forma de transmissão de valores. Para tal, iremos espreitar as músicas ‘Vidas Positivas’ de Mr. Arssen, ‘Labirintos’ de Azagaia e ‘VenSIDA’ de Iveth. Mais adiante cada um irá descobrir ‘os porquês’ da escolha destas músicas. Por ora, iremos iniciar a nossa abordagem com uma pergunta, a qual tentaremos responder ao longo de texto:

Porquê usar histórias e música para transmitir valores?
Sobre histórias, Gallehugh e Gallehugh (2005) afirmam que “habitualmente aprendemos mais e melhor por meio de uma alegoria, dado que reduz a resistência natural à mudança e gera uma impressão mais duradoura na memória. Com os contos ou histórias as pessoas baixam as defesas e, escutam e aprendem melhor. Quando se escuta um conto é fácil identificar-se com seus heróis e portanto converter-se o conto em um espelho de experiências humanas”. [1]
Se têm as histórias esse poder transformador sobre as pessoas, o que dizer então da música?
Segundo o filósofo grego Aristóteles "...emoções de toda espécie são produzidas pela melodia e pelo ritmo: através da música, por conseguinte, o homem se acostuma a experimentar as emoções certas: tem a música, portanto, o poder de formar o carácter, e os vários tipos de música, baseados nos vários modos, distinguem-se pelos seus efeitos sobre o carácter - um, por exemplo, operando na direcção da melancolia, outro na da efeminação, um incentivando a renúncia, outro o domínio de si, um terceiro o entusiasmo, e assim por diante, através da série". [2]
De certa forma, estas citações não só respondem à nossa questão como também deixam transparecer, embora de uma forma geral, que se tanto as histórias como a música separadamente têm o poder de transformar o carácter das pessoa, em nada se pode duvidar da eficácia do efeito combinado destes dois fenómenos.
Continuando, iremos tentar afinar a resposta à medida da música Rap conforme prometemos na Introdução. É importante relembrar que o Rap nasceu não só com o propósito de denunciar a triste e degradante realidade social vivida pelos jovens afro descendentes (nos EUA) mas também para propor possíveis saídas para tal situação. Então, assim como os contadores de histórias, os rappers carregavam (e ainda carregam) consigo a responsabilidade de orientar os membros das suas comunidades para uma mudança de comportamento face à algumas atitudes negativas. Daí o facto de alguns rappers recorrerem ao uso de narrações como forma de consciencializarem o seu público-alvo, como o fizeram os rappers moçambicanos Mr Arssen, Azagaia e Iveth cujas letras serão consideradas a seguir:

As histórias dos rappers Mr Arssen, Azagaia e Iveth

  1. Vidas Positivas – Mr Arssen (com Dejavu)
Neste tema, Arssen conta a história de Constantino, um jovem de 20 anos, órfão de pai e mãe, que vivia num acampamento, num ambiente de fraternidade com outros jovens na sua condição. Entretanto, cansado de fazer figura de parvo, ele decide mudar de atitude e passa a viver de maneira negativa: vai à discoteca, mate-se com muitas mulheres e não dá ouvido a todos quanto o chamam atenção em relação ao seu comportamento. A seguir, abandona o acampamento para ir viver na rua onde tinha que lavar carros para ganhar a vida, sem deixar de lado o seu estilo de vida boémio. Um dia, Constantino acorda doente e decide ir ao hospital e lá descobre que era seropositivo, daí, seus novos companheiros passam a estigmatizá-lo e ele sente-se muito triste e só. Então, ciente das consequências dos seus maus actos, arrepende-se e decide voltar para onde tudo começou. Volta ao acampamento e lá todos o recebem de braços abertos. Vale a pena conferir o refrão brilhantemente interpretado pela dupla Dejavu, pois nele está estampada a ideia principal deste tema musical: “Quero mudar esta situação, quero dar mais a minha mão/ E levar uma vida positiva”.

  1. Labirintos – Azagaia (com SGee)
Em ‘Labirintos’ Azagaia expõe o complexo tema das redes sexuais. Conta-nos as histórias de quatro personagens cujas vidas estão interligadas por meio de uma rede sexual. O primeiro é Carlos que é um homem bem casado, com uma grande mulher e pai de uma bela e bem comportada filha, a Cecília. Entretanto, apesar da sua sorte, Carlos tem o defeito de ser muito mulherengo, tendo inclusive levado várias doenças venéreas para casa e por fim ter acabado por se infectar pelo vírus do SIDA. Depois temos a Dona Paula, uma mulher trabalhadora, casada e mãe de uma filha. Por ser infeliz, Dona Paula acaba saindo com Celsinho, um rapazinho que não chega a ter metade de sua idade. Ela descobre que está infectada e se ressente por ter feito sexo sem preservativo com Celsinho. A seguir nos é apresentada Cecília, a filha de Carlos e Dona Paula, que adora os pais mas adora muito mais ainda o namorado, tanto que faz amor com ele sem usar preservativo. Entretanto, o azar bate a porta, o namorado que tivera um caso com uma ‘cota’, faz o teste de HIV e o resultado é positivo, conta a história à namorada e ela quase que sufoca. Por fim, Cecília fica grávida, os pais descobrem e exigem que o namorado se apresente. Para o espanto de todos no dia da apresentação descobre-se que o tal namorado era nada mais nada menos que Celsinho. Posto isto, Azagaia apela a todos para mudarem de comportamento e o tema fecha com o refrão cantado em Xironga (língua do sul de Moçambique) por SGee, o mesmo que é usado para intercalar as histórias, cujo conteúdo é o seguinte: “Sei que errei/ Peço que me perdoe”.
    
  1. VenSIDA – Iveth (com Sick Brain, Henv, Azagaia & Bakha)
Em VenSIDA encontramos três histórias trágicas cujo conteúdo pouco se distancia das que já vimos. O tema abre com uma visão geral da anfitriã Iveth sobre o conteúdo das histórias que seus convidados Sick Brain, Henv e Azagaia a seguir apresentam. De uma forma resumida a música fala de três jovens que por motivos distintos acabam se infectando pelo HIV, o primeiro por ganância, a segunda por ingenuidade e o terceiro pelo alcoolismo. Aqui as histórias são intercaladas pelo refrão: “Mais uma alma vencida/ uma consciência adormecida/ Talvez tenhas a prenda merecida/ Mas deixas a sociedade distorcida”.
   
Considerações finais
Reflectindo sobre os conteúdos das histórias, facilmente poderemos chegar à conclusão de que através delas realmente iremos baixar as nossas defesas, escutar e consequentemente aprender mais e melhor. Em todas histórias, não iremos detalhá-las novamente pois seria um exercício desnecessário, identificamos nas personagens algumas atitudes muito próximas àquelas que tomamos no nosso dia-a-dia e, de certa forma, a maneira como cada história se desenvolve e termina pode nos consciencializar de forma a evitar um futuro dramático. Há também na moral de cada história uma clara transmissão de uma série de valores tais como: a fraternidade, a temperança, a não estigmatização e o perdão (Vidas Positivas); a união familiar, a fidelidade, a honestidade e o respeito (Labirintos); a humildade e a prudência (VenSida). Enfim, estas histórias convertem-se em um verdadeiro espelho de experiências humanas que nos conduz à mudança de comportamento.

Referências bibliográficas
  1. Gallehugh, S. e Gallehugh, A. (2005). Cuentos para mayores. Barcelona: Obelisco.
  2. Mr. MaxMaster (2005). Mensagens Sublimares. Disponível em: c343.4shared.com/.../-B.../MENSAGENS_SUBLIMINARES_2.pdf

4 comentários:

Kanino disse...

Mais um excelente trabalho da tua parte, Magus. Isto merecia no mínimo uns 100 comentários. Maldito facebook! Meu único reparo aqi (se me permite) é a escolha das músicas. porque é q todas elas falm de HIV/SIDA? Há outros valores a serem transmitidos para além de "use camisinha, meu irmão", não? Paz!

Gabriel Muianga disse...

Li esta postagem de forma atenta e ao esboçar o meu comentário acerca do tema em análise dei-me conta que ja havia escrito cerca de meia página, então decidi fazer o comentário em forma de postagem, que pode ser visto em:
www.mozancora.blogspot.com

Magus DeLirio disse...

Thanx Kaninbo!

Na verdade a escolha não foi intencional, só me apercebi disso depois de seleccionar as músicas e simplesmente me deixei levar pelo facto de ter descoberto que as mesmas convergiam no tema tratado e uma vez que estávamos na semana de luta contra SIDA (1 de Dezembro) acabou ficando assim.

Realmente há outros valores serem transmitidos, certamente vamos tratá-los nas próximas postagens.

Firmes até que Jesus volte!

Magus DeLirio disse...

Muianga,

Li tua postagem mas infelizmente qdno ia reler me dei conta de q esta tinha sido removida do teu blog.

thanx anyway!