A propósito dos meses de Março e Abril, o primeiro dedicado internacionalmente à figura de mulher e o último dedicado especialmente à mulher moçambicana.No primeiro número desta série, confira aqui, introduzimos as oito imagens da mulher, apresentadas pelo investigador Estêvão J. Filimão no seu artigo “Imagem da mulher nas canções da música urbana na Beira (1975 - 1989)” e prometemos avaliar a existência ou não destas imagens no seio do Hip Hop Moz. Neste número, nossa reflecção irá incidir sobre a primeira imagem, isto é, a Imagem Mulher-Caça-Tesouros. Cá vamos nós!
Segundo Filimão, esta imagem
“É aquela em que a mulher é apresentada como enganando o seu parceiro, com o mero objectivo de deixá-lo na pobreza, depois de lhe ter esbanjado toda sua (do Homem) riqueza em bens materiais. O amor é referido como sendo falso porque utilizado dissimuladamente pela Mulher como meio de acesso às já referidas riquezas, considerando que desaparecendo estas, com elas também cessará o amor. No entanto, esta imagem tem uma base sociológica porque vulgarmente conhecida na linguagem ordinária da Beira por ‘shikwashula’”. [1]
Conforme se pode constatar, a definição ora apresentada é mais do que esclarecedora, não deixando, portanto, qualquer espaço para esclarecimentos adicionais. Entretanto, julgamos ser interessante frisar que a maneira como os rappers constroem a imagem da Mulher e/ou outras imagens identitárias, está intimamente associada ao facto do Hip Hip ser uma cultura historicamente dominada pelo Homem e, por consequência, demasiado machista. O próprio progresso desta cultura é por si só grande testemunha de quanto os rappers se esforçam em manter esta dura imagem, recorrendo muitas vezes para tal à ‘coisificação’ da Mulher. Este facto concorre, sobremaneira, para que imagens como a da Mulher-Caça-Tesouros, e outras que deixam a Mulher numa posição pouco privilegiada apareçam com maior frequência que aquelas que visam engrandecer a sua imagem (da Mulher).
Voltando ao que interessa, a Imagem Mulher-Caça-Tesouros, que pelos motivos anteriormente citados, aparece vezes sem conta no Hip Hop em geral, e no Moçambicano em particular, pode ser encontrada, por exemplo, nas músicas de GPro Fam (Interesseiras), Mr. Ripper (Ninja), e mais recentemente (e por aproximação) em G2 (Anti-chula).
Importa ressaltar que os exemplos citados não foram escolhidos ‘à toa’, motivou-nos para tal o facto de haver uma interessante relação de complementaridade entre eles. Nas duas primeiras músicas, os intérpretes aparecem a desempenhar o papel de pôr o Homem em alerta em relação a esse tipo de Mulher, conforme comprova a advertência da GPro (com Dinastia Bantu) na voz de Sem Paus “Nunca te apaixones por uma sanguessuga” e confirma a conclusão de Mr. Ripper “Essa dama é ninja”. Na última, que existe em duas versões, uma com a participação especial de Trez Agah e a outra de Azagaia, o intérprete G2, como que em jeito de resposta às duas primeiras, apresenta-se como um homem que de tanto sofrer nas mãos dessas ‘lobas em pele de cordeiro’ acabou desenvolvendo capacidades e habilidades para se defender delas, isto é, ele torna-se num verdadeiro “Anti-chula”.
Fora a relação de complementaridade, estes temas trazem consigo atributos que denunciam que a Imagem Mulher-Caça-Tesouros neles apresentada tem, conforme a definição de Filimão sugere, uma base sociológica. Falamos de termos como: ninja, chula e sanguessuga, que à semelhança do termo shikwashula*, usado na Beira, são também muito conhecidos e usados na linguagem ordinária de diferentes pontos do país e do mundo.
Pronto, fica desta maneira provada a existência da Imagem Mulher-Caça-Tesouros no seio do Hip Hop Moz. Voltaremos dentro em breve para darmos continuidade à nossa reflecção, com a apresentação da segunda imagem, a Imagem Mulher-Cara-Metade.
* Adorei este termo, acho que vou passar a usa-lo, aliás, devíamos todos passar a usa-lo, soa-me à palavra mãe de chula e melhor, é afro.
Referência Bibliográfica:
[1] Afonso, A. E. S. (Coordenação). Eu Mulher em Moçambique. Maputo: CNUM/AEMO, 1994.
8 comentários:
eu vou passar a usar esse termo mas algo me diz q e' um remix de chula. E' muita coincidencia nao achas?
Para quando o Nr 3 da série? Os dois primeiros deixaram água na boca
Kanino,
Realmente é muita coincidência, mas este trmo é bem meis engraçado.
Tamusjuntus!
Nelson,
Dentro em breve, o tempo é que não tem ajudado muito ultimamente.
Tamusjuntus!
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Thanx Van
É para jah!
uma expressão quando vi\;Uauh!
Isso que são mulheres de valor! Trabalhadoras!
Isso aí mana Cliceli.
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